terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Morte e vida, brasileira!


Ligue a televisão. Qualquer pessoa minimamente preocupada com questões humanas não entenderá como podem ocorrer tantos casos de natureza tão horrenda em um espaço de tempo tão pequeno. Sem hipocrisia: sabemos que desde o inicio da historia humana a violência está presente, não é um reflexo de acontecimentos modernos. Mas nem de longe o fato de uma coisa se repetir incontáveis vezes torna-a menos vergonhosa.
O que realmente é preocupante é a naturalidade com que vemos tais acontecimentos e, novamente, não é uma questão atual, mas sim histórica. Isso é um sinal da perca gradativa que ocorre em nossa capacidade de indignação, de repudio frente ao horror. Em outras palavras, a nossa “humanidade” perde-se a cada fato que nos é jogado ao rosto, a cada vida que não podemos salvar. Com o tempo, o que nos resta é apenas a indiferença.
            A menos que ocorra com alguém de nossa família, ou com algum amigo próximo, mortes serão apenas números. Apesar de vermos nos jornais todos os detalhes sobre um ou outro caso, sabemos que os números reais são bem superiores aos que os meios de comunicação são capazes de expor, contudo, números não são capazes de transmitir emoção. A dor que sentimos ao perdermos um ente querido é infinitamente superior à que sentimos ao lermos as estatísticas das mortes de causas violentas no Brasil, por exemplo. É claro, não é uma comparação correta a ser feita, visto que não temos laços com estas pessoas. Entretanto, a comparação não se dá em “sentir mais ou menos”, a comparação se dá em sentir algo, e não sentir nada. Indignação. É isto que nos falta.
            O nosso grande erro é ver com naturalidade uma coisa que não é natural. Não há sequer uma causa para nos conformarmos perante milhares de mortes desnecessárias, principalmente quando sabemos que o grande responsável por estas mortes somos todos nós, a sociedade. “Não tenho culpa de um marido ser alcoólatra e ter matado a mulher e os filhos” – Este é um grande engano. Uma pessoa tornar-se ou não alcoólatra é um fato que não depende unicamente dela, mesmo sendo a grande estrela do espetáculo. O que devemos tomar por verdade é que uma realidade atual é sempre o resultado de uma seqüência de realidades anteriores. Diga-me, por que um garoto que vive diariamente com o crime organizado torna-se um traficante? Por que ele quis, afinal muitos outros nascem em condições semelhantes e nem por isso tornam-se todos criminosos? Quem faz este tipo de afirmação não compreende que, em se tratar de seres humanos, trata-se de seres humanos! Mutáveis, individuais, complexos, seres que vivem cada experiência à sua forma. Não há vidas iguais, nem acontecimentos humanos iguais. Cada homem é único, e, dessa forma, também o é cada fato ocorrido consigo. Logo, as conseqüências de um mesmo fato variam de pessoa a pessoa: cada caso tem de ser estudado em sua individualidade.
            Enfim, temos culpa e não temos consciência! Ah, o que me lembra que se analisarmos os dados, a taxa de violência tem caído bastante nas ultimas décadas, principalmente nas capitais, como resultado de melhores investimentos em infra-estrutura social, geração de empregos, entre outros. Mas isso é um verdadeiro avanço? Um morador da capital paulista tem só 50 vezes mais chance de ser assassinado que um morador de NY. Se levarmos em conta que esse número já chegou a faixa de 600 vezes, é um grande avanço, mas, pensando bem, que merda de avanço! 50 vezes mais chance de morrer assassinado? Isso não deveria nem ser divulgado, tamanha a vergonha a que nos expõe! E ainda comemora-se isso?
E saber que tudo está como está porque nossa população não foi suficientemente bem planejada, assim como nossas cidades e suas estruturas, fracas, vitimas do estupro colonial desde o inicio da nossa historia, me deixa triste por viver no solo mais rico do mundo, em todos os sentidos, e só ter como lembrança desta riqueza a nossa inferioridade eterna, nossa servidão eterna, nosso sofrimento eterno. E nossa fraqueza, que faz quem tem poder vender a alma em troca de riqueza pessoal, e não nos permite lutar para uma melhor condição social. E, nem para morrer menos...